Luto, tristezas e uma certa paz - 2

Uma das minhas irmãs diz que avista nossa mãe nos seus próprios gestos e feições quando se olha no espelho. Achei isso tão bonito e fiquei pensando, eu não, eu não a vejo. Tenho a sua presença e a sua ausência a cada momento em cotas suaves de tenuras e dores ásperas de  novas perdas.   Ah, no mundo das mudanças, no mundo dos provisórios, no mundo dos fluxos, no mundo das fases, das passagens é tão complicado lidar com este definitivo, a morte.

Luto, tristezas e uma certa paz - 1

Eu tinha medo da tarde, vinha um frio... Ela morreu ao fim da tarde. Mãe. É tarde! Por mais que eu invente sóis, é tarde. Tarde não por algo que não foi feito, mas é tarde, porque é tarde. Se já não dá mais pra nascer, também já não tenho medo das tardes. Elas doem, não me assustam mais, só se calam em suas belas e calmas cores.
Um júbilo por detrás dos ossos,
força-os em grandezas incabíveis ali.
Ou um aperto. Sabe-se lá
a duração de um e outro,
que se confundem.

A página que se segura parada.
Velas levemente amareladas, capitão embriagado.
Virar é continuar a ler:
júbilo e prazer.

Deixá-la ali,
com um marcador qualquer,
é ir cambaleante com os desejos:
escrever.
Assim, garantida de apertos e sopros
fica a pergunta na expansão
e contração do peito:

Me quer
Não me quer
Me quer Não

me quer
Seguir em frente seguir
com os olhos no horizonte
na borda menos cortante do entardecer

pela janela da lanchonete
Tomar um café encostado no vidro e
pensar até a noite cair. Demorou um século

a chegada daquela noite. Ouviu-se
um baque de cores densas
e vozes baixas. Ela caiu ao som de uma música

totalmente inadequada.
Então, era hora
de ir – ele se foi -
pela noite adentro.

Uma palavra se esforça para cair na página,

fica ao lado como um fio
de cabelo que a circunferência da água
em redemoinho não consegue puxar
para o centro da pia, para o vazio do ralo. A palavra

esvazia-se de pretensões,
mas ainda não de toda pretensão,
é só um espasmo de cordas, mas é,
espasmo de vogais,
talvez um ai, e nada mais. De viver

Ai de viver. Ar de sofrer, Ah,
morrer não, morrer sim, mas então, uma
palavra na página apenas
para ser um som, um sinal
da vida, da via, da dúvida, da poesia.

O fio de cabelo gruda-se na pia,
escreve um risco
vento de asas,
amor de um momento
de um ver

mas fosse o amor
naquela hora
um encontro e tudo o mais

não foi
foi somente coisas de ar
pássaros

o olhar de um
o olhar de outro
a multidão e nunca mais.
de que vale é uma pergunta
de que vale é essa flor
de que vale essa palavra
que se faz de uma dor, ou mais amor

de um dia

talvez de dois, perdidas horas
em palavras horas, hortas de,
jardins, pomar. mas
talvez mais vale a paz,
que paz, pergunte,
parto de quem,

quem nasceu vale

de que vale
em que vale corre
o córrego São Francisco

de que palavra corre
o poema foge, do que foge
o poema de que vale
vale uma casa uma palavra

defronte pro sol nascente
nasci
dão sinal...as frases dão sinal de acabar, talvez acabem, as frases

o que ficará no lugar, o lugar, a paisagem, lados, ainda mais, mais do que multiplicados

mas estou bem, uns foram comigo lá, lá, bem lá

uns foram, dois exatamente, ela, ele, mai-eurico

depois tudo se desfez, se desfaz, e se refez, se refaz, o mar, isso

o mar abraça minha cidade, refaz meu estado de amar
as frases são folhas, folhas num pé de poema, mas folhas.

são  tão belos os poemeiros pelo mundo afora, mas estas frases são folhas, folhas marrons.

deixei de escrever poemas, pelo menos por enquanto, escrevo frases, frases folhas, marrons.

frases que o vento leva,  frases secas e leves, prontas para serem varridas.
aguentei até...

enfim teus olhos escreveram e eu fiquei incapaz de dizer outra frase senão te amo, essa ilusão de sol para tornar as sombras canteiros de calêndulas.

foi um momento, apenas um momento na vesga tarde de dezembro quando.

sorri uma frase triste e me reescrevi poesias.

pode ter sido um invento, venta-me sempre luzes de brilhos pequenos, invenções sem fundamentos,

vou dobrar a frase aqui, mente, minha mente anda, minto.

me sinto uma camisa branca no varal num espaço de pasto verde, leves montanhas ao fundo, e mangueiras, muitas mangueiras e alguns coqueiros, talvez também um imenso pé de tamarindo
descanso, morro nessas frases e em cada morte é que a vida se levanta e me faz brilhar os olhos, no que leio do que saiu de minhas mãos.

saio e volto e não sei se primeiro volto para depois sair destes campos verdejantes onde precariamente sacio-me.

um vento inventa-me agora, respiro distraído que foi esse vento nas narinas de Deus, mas ja sou outro no fim desta frase, desinventei-me, fica a frase
ventos perdidos, rosas pendidas, pesos da chuva, o que digo.

não digo mais sentidos, digo lá para onde aponta o galo de aço sobre o cruzeiro.

o galo pisa na seta e olha, acerta o que quer ver.

eu... e eu? eu sigo nas frases um vento, dois, mais, os dos anjos e os dos humanos, dos sedanos, sou um sedano, uma sede que persiste, uma sede que me existe para não escrever poemas.

venta e me vira de sede, sede, lábios ressecos, para me mostrar com o cálice na  mão.
não há o poema escrito; um risco é o que há.

a palavra resiste à corrente, rompe-se em frases longe, bem longe do que se espera.

faz um riacho, seca uma poça, revira a flor para um outro lado, como o vento.

vento, sim, ventos, deve ser isso o que escrevo agora, ventos
a página dobrada do romance perdido foi dobrada com força.

ficou nela uma reta que nunca mais se desfez, mesmo quando torta a vida, que se confundiu com a página.

frases inacabadas ganham desvio e se vão.

se foi o tempo dos poemas.

quem sabe volte,
água foi apenas uma palavra que vazou.

de saudade talvez do poema, dessas pernas de andar às tontas.

recolhe-se pensamentos, ajunta-se assim em frases, crases sobre o a.

a vida não se versificou.

diversificou-se ao invés, um recreio as frases nas aulas difíceis lições de amor.